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Startups brasileiras desafiam a melancolia econômica com arrecadação recorde (traduzido do Financial Times)

Tradução feita por Lucas Foster, da ProjectHub, do jornal norte americano, Financial Times
Para essa e outras notícias do FT sobre o startups, tecnologia e inovação acesse: ft.com

Federico Vega se lembra do dia em que tentou largar a sua startup brasileira de tecnologia, a CargoX, uma espécie de Uber para caminhões. Enquanto procurava por recursos em São Paulo, um investidor local falou ao empreendedor argentino, de forma raivosa, que esquecesse da ideia. A indústria caminhoneira no Brasil, conta o investidor, era um dos setores mais complexos no país mais complexo do mundo, sofrendo com a criminalidade, corrupção e informalidade. Não era um bom lugar para um recém chegado, muito menos para um estrangeiro.

"Esse foi o único dia que quase desisti", disse Vega. "Eu pensei que não iria arrecadar dinheiro nenhum."

Mas as coisas mudaram. Mesmo com a economia do Brasil tendo dificuldades para sair da recessão, e a incerteza política aumentando antes das eleições em Outubro, a CargoX e outras startups brasileiras estão arrecadando uma quantidade de fundos recorde.

Os investimentos de venture capital na América Latina ultrapassaram os U$1 bilhão pela primeira vez no ano passado, a maior parte ficando no Brasil, sendo o dobro do montante comedido um ano antes, de acordo com a Lavca (Latin American Private Equity & Venture Capital Association). Investidores estrangeiros participaram de 61% das rodadas de investimento, de acordo com relatório da CB Insights.

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O Brasil este ano produziu dois dos chamados "unicórnios", empresas privadas avaliadas em mais de U$1 bilhão, o Nubank, a maior fintech do país, e a 99, aplicativo de corridas de táxi adquirida pela chinesa Didi Chuxing.

"Investidores institucionais que tradicionalmente não olham para o venture capital, ou que não tinham foco em tecnologia, agora estão todos interessados em venture capital e acordos de tecnologia," disse Cate Ambrose, presidente e diretora-executiva da Lavca.

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Conhecido por seu alto custo e corrupção, a economia brasileira é dominada por empresas tradicionais em áreas desde bancos até transporte e saúde, fazendo disso um alvo atrativo para startups ágeis de tecnologia, dizem os investidores.

"O ecossistema (de venture capital) é ainda incipiente quando comparado ao dos Estados Unidos e outros mercados internacionais - por isso, essa grande oportunidade para startups," disse Hillel Moerman, head do Goldman Sachs Private Capital Investing Group, investidor da CargoX.

A CargoX nasceu há apenas dois anos, possui uma rede de motoristas compostos por 30% dos um milhão de donos de operadores de caminhões no país. A empresa arrecadou U$35 milhões enquanto uma nova rodada de fundos pode arrecadar "muito mais", disse Vega.

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"O Brasil é um país enorme, a sexta ou sétima maior economia do mundo, mas ainda está em seus estágios iniciais de desenvolvimento de novas empresas de tecnologia," afirma Cliff Sobel, senior partner da Valor Capital Group, outra investidora da CargoX.

A série E de U$150 milhões do Nubank que rolou em março deste ano, liderada pela russa DST Global, aumentou o total arrecadado do banco em seu quinto ano para U$330 milhões. O Nubank agora se considera a maior fintech de consumidores fora da Ásia, com 4 milhões de usuários de seus cartões de crédito e 1,5 milhão de titulares de conta corrente. As contas são abertas online e sem taxas - uma revolução para o extremamente burocrático setor bancário brasileiro.

"Isso explica o porquê que o Nubank conseguiu um crescimento mais rápido do que qualquer outro banco digital nos EUA e na Europa, mesmo com uma macroeconomia indo de mal a pior," Velez disse.

Fintechs, em geral, tem sido um investimento popular no Brasil, com outros negócios incluindo a Creditas, uma startup de empréstimos assegurados, e a PagSeguro, empresa de pagamentos que teve o lançamento de seu IPO em Nova Iorque, arrecadando dinheiro.

"Nós vimos bastante interesse em fintechs como a PagSeguro," afirma Roderick Greenlees, head global do banco de investimento Itaú BBA

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A demografia também está por trás do crescimento de startups de tecnologia no Brasil, de acordo com Thomaz Srougi, fundador do Dr. Consulta, uma população enorme e em envelhecimento no Brasil incendeiam a demanda por saúde. Sua cadeia de clínicas populares expandiu, em três anos, de uma para 51 filiais e afirma ter a maior base de dados clínicos do país a partir dos seus um milhão de pacientes.

"Através da tecnologia, nós pudemos fazer da saúde mais acessível e barata," disse Srougi. Suas consultas custam US$25,00 comparada ao mínimo de U$90,00 em outras clínicas privadas, num país em que o sistema público de saúde é de graça, mas notoriamente ineficiente.

Certamente, as startups brasileiras ainda são pequenas comparadas aos seus competidores já estabelecidos. O maior banco privado brasileiro, o Itaú Unibanco, por exemplo, contabilizou mais de 30 milhões de titulares de cartão de crédito em 31 de março. Os bancos tradicionais brasileiros também são conhecidos pela tecnologia financeira sofisticada e estão em constante desenvolvimento de serviços bancários competitivos para mobile.

E enquanto investidores de empresas de crescimento rápido não estão tipicamente focados em considerações macroeconômicas, um investidor disse que a volatilidade da moeda brasileira foi dissuasivo para alguns.

Ainda, Tom Stafford, investidor do Nubank através da DST Global, espera que o Brasil se torne um hub de tecnologia nos próximos 5 ou 10 anos.

"O Brasil tem um mercado vasto, uma população bastante experiente em tecnologia com uma demografia atrativa e talentos decentes em engenharia e computação. Você tem todos os ingredientes para desenvolver um ecossistema," conta Stafford.